A frase "A Regra é não Ter Regras" ficou marcada por ser o título do livro de Reed Hastings, CEO da Netflix, que aborda a filosofia de "liberdade com responsabilidade" que, segundo ele, torna possível a criatividade e adaptação em um mundo de cenários imprevisíveis. Mais do que tratar de um caso isolado, porém, a expressão reflete a cultura de muitas das empresas capazes por gerarem grandes inovações.
Esse modo de agir, no entanto, está sendo, hoje, constantemente questionado pela atual necessidade de uma regulamentação governamental das Big Techs, e a grande questão segue: como estabelecer limites sem frear a inovação?
PENSAR COM OS PÉS
A cultura do Vale do Silício é fundamentada na ideia de que "primeiro se cria, depois se justifica". Isso não é só um ímpeto de juventude ou de poder, é algo próprio do funcionamento de TerraDois, onde temos que lidar com um imprevisível radical: aquilo que foge às previsões não porque não temos dados suficientes, mas porque nenhum montante de dados seria capaz de prever. Para não ficar paralisado frente ao impossível de tudo saber, destaca o psicanalista Jorge Forbes, é preciso agir e, depois, sustentar sua ação. É o que Jacques Lacan chamou de "pensar com os pés".
Isso fica transparecido na famosa fala de Steve Jobs quando ele diz que nenhuma pesquisa de mercado ou focus group seriam capazes de gerar o iPhone. Antes de uma inovação existir não temos nem vocabulário para justificar sua criação. As explicações se dão a posteriori. Esse modo igualmente arriscado e responsável de agir foi o que gerou uma inovações que temos hoje.
Essas inovações mudaram o modo como nós nos relacionamos. Encurtaram distâncias, mas também nos mostraram que alguns conceitos que pareciam estáveis, "desmancham no ar". Hoje, questões sobre como estabelecer diretos autorais, uso de inteligência artificial, uso de dados, curadoria de experiência por algoritmos, demonstram isso ao mesmo tempo que desafiam o Direito contemporâneo.
ONDE FICA O LIMITE?
Estamos em um mundo sem limite? Acreditamos que não. TerraDois é um mundo sem padrões estáveis, mas há ainda um limite ético. Quando a questão é a utilização e o desenvolvimento de tecnologias estamos ainda tateando para encontrá-lo. Temos, porém, ainda outra questão: como fazer o limite ser respeitado numa escala global — afinal, uma legislação que pode ser sustentada na Europa, provavelmente não será na China. Impor uma regulamentação é uma coisa, torná-la viável, em um mundo horizontal, é outra. “Uma vez estabelecida a regra a cumprir, se estabelece simultaneamente o caminho de como burlá-la” , destaca Jorge Forbes.
Isso vale tanto para países, como para as regras dentro de nossas próprias empresas: “os códigos de ética têm de ser mais parecidos com pactos, nos quais os funcionários vejam representado o mundo atual e não o mundo anterior, que era de caráter disciplinador” , continua Forbes.
O PODER DO CONTEXTO & O LIMITE QUERIDO
Em um mundo menos disciplinado, há uma necessidade maior da responsabilidade. Como, então, tocar no botão da responsabilidade subjetiva de cada um? Pelo poder do contexto, diz Jorge Forbes.
Um exemplo já muito conhecido do Poder do Contexto foi descrito no livro "O Ponto de Mutação: Como Pequenas Coisas Podem Fazer uma Grande Diferença" de Malcolm Gladwell. Nele, o jornalista canadense conta como, na década de 1980, o metrô de Nova York enfrentava altos índices de criminalidade, sujeira e desordem, criando uma atmosfera de insegurança e desconforto para os passageiros. Gladwell discute como, através de medidas aparentemente pequenas, como combater a pichação, o metrô de Nova York passou por uma transformação notável. São detalhes que contribuíram para uma mudança de perspectiva e de paradigma. "É um gesto que não atemoriza o agressor em potencial, mas o ridiculariza. Esse é o ponto: vencer pela vergonha, não pelo medo." coloca Jorges Forbes.
O que estamos vendo é que, em TerraDois, cada vez menos funcionam os limites impostos, aqueles que pedem a disciplina de cada um. Em contrapartida teremos, cada vez mais, a necessidade de limites quistos, que pedem a todos uma responsabilidade subjetiva.
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.