A ambição de chegar ao topo da escada corporativa já não é o sonho das novas gerações. Dados e pesquisas recentes indicam uma tendência crescente entre os membros da Geração Z de evitar cargos de liderança tradicionais.
Uma pesquisa conduzida pela empresa de consultoria Deloitte revelou que apenas 14% dos jovens dessa faixa etária expressaram o desejo de alcançar um cargo de liderança durante suas carreiras. Esse número contrasta significativamente com as gerações anteriores, que geralmente valorizavam a ascensão a posições de liderança como um indicador de sucesso profissional.
Essa relutância em assumir cargos de liderança vem sendo atribuída a uma variedade de fatores, como a valorização da vida pessoal, e a busca oportunidades que ofereçam flexibilidade e autonomia, mas é preciso ir mais a fundo nessa questão. Sim, cargos de liderança muitas vezes demandam longas horas de trabalho e uma grande responsabilidade, mas isso sempre foi assim. Então, o que mudou?
O PAPEL DO LÍDER
Nos últimos anos, o papel do líder passou por uma transformação significativa, especialmente com os desafios apresentados pela pandemia global. Há uma década, o papel da liderança era bem definida, muitas vezes se limitando a uma série de responsabilidades e características. Ser líder era mais prescrito, com expectativas claras sobre como exercer autoridade e tomar decisões.
Hoje não podemos dizer que o mesmo se dá. O papel do líder se amplificou, não há limites claros para sua ação. Mais do que isso, liderar hoje é lidar a todo momento com a subjetividade dos colaboradores. Eventos como pandemia de COVID-19 não iniciaram essa mudança, mas aceleraram, trazendo à tona uma nova dimensão da liderança, uma que se vê a todo momento de frente com questões emocionais e subjetivas dos colaboradores. Hoje, o líder desempenha um papel ampliado, que vai além das tarefas operacionais.
DECIDIR NO INDECIDÍVEL
Tomar decisões é algo cada vez mais incerto e arriscado. Hoje o ambiente empresarial é caracterizado por uma imprevisibilidade e fluidez sem precedentes, o que torna as decisões dos líderes mais complexas do que nunca. Vivemos em um mundo em constante mudança, onde fatores externos como avanços tecnológicos, dinâmicas de mercado e eventos globais podem impactar profundamente as operações de uma organização em um piscar de olhos.
Essa imprevisibilidade significa que os líderes enfrentam um cenário onde não há garantias absolutas de que suas decisões serão as corretas. As informações e dados disponíveis podem ser incompletos ou ambíguos, o que torna a análise e a previsão de resultados ainda mais desafiadoras.
Além disso, as consequências das decisões dos líderes podem ser amplificadas pela conectividade global e pela rápida disseminação de informações. Uma escolha mal informada ou mal executada pode ter repercussões significativas não apenas para a organização, mas também para seus colaboradores, clientes e partes interessadas.
Nesse contexto, os líderes são confrontados com a necessidade de tomar decisões sob incerteza. Eles devem ser ágeis e adaptáveis, capazes de reavaliar e ajustar suas estratégias conforme necessário em resposta às mudanças no ambiente externo. Além disso, a responsabilidade por cada escolha e decisão é cada vez maior. Nada exclui o risco.
A SOLIDÃO DO TOPO
Por tudo isso, a posição do líder ficou ainda mais marcada pela solidão. O psicanalista Jorge Forbes divide essa solidão em duas formas — a produtiva e improdutiva.
A solidão produtiva, diz ele, é justamente essa “que vive o líder do tempo da globalização, que sabe que qualquer conclusão é precipitada. Quem quiser esperar o conhecimento completo de todas as premissas, para só depois concluir, está fadado a nadar no pântano da indecisão. O mundo globalizado é um mundo incompleto, que não responde a nenhum padrão universal. O líder é confrontado à necessidade do risco e da aposta, e o que diferencia o grande do pequeno líder é o talento, a coragem, a ousadia e a criatividade.”
Já a solidão improdutiva é aquela que, “causada pelos mesmos motivos da anterior, paralisa aquele que deveria ousar e, no entanto, se acovarda. É a este capítulo que pertencem os estressados, pois o estressado é quem cronifica a angústia pelo temor do ato”.
Para termos uma nova geração de líderes precisamos justamente mostrar que não se resolve a solidão da liderança, mas que é possível encará-la como um exercício de talento, coragem, ousadia e criatividade.
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.