"O medo deixou de ser vício para se tornar virtude" disse Jorge Forbes, psicanalista e cofundador da beatt:
"Quando éramos pequenos, nossos pais diziam: 'Meu filho, quando você crescer, você não vai mais ter medo'. Ou seja, o medo era vício da infância. Hoje, as pessoas nos dizem que temos de ter medo de tudo: medo de sair na rua, medo da camada de ozônio – que, aliás, você não tem a menor ideia do que seja, mas morre de medo dela –, medo de andar com o vidro do carro aberto; medo do Sol, porque ele vai causar câncer; medo de usar açúcar e medo de não usar açúcar também. Medo do sexo, perigosíssimo! E por aí vai."
Nessa newsletter selecionamos os principais pontos articulados por Jorge Forbes que nos convida a ir de uma Ética do Medo para a Ética do Entusiasmo, dentro e fora do mundo das empresas e do trabalho.
MEDO DE VÍCIO À VIRTUDE
Nas últimas décadas houve uma mudança de postura em relação ao medo. Em algumas situações da vida (inclusive no trabalho) o medo serve como um bom alerta, mas, hoje, muitos tendem a ver o medo como um bom conselheiro — e não foi sempre assim.
"A sociedade colocou o medo como seu grande orientador. Ou seja, e insisto, de vício se tornou virtude, nos agarramos na bainha da saia do medo, o que é muito ruim." Jorge Forbes
O que mudou? Mudou que hoje vivemos em uma sociedade horizontal — e essa mudança de arquitetura tem um impacto muito maior que imaginamos. A principal delas é que antes tínhamos padrões universais para guiar as nossas escolhas e nossas tomadas de decisão, hoje temos uma multiplicidade de escolhas que deixa claro que cada decisão implica em um risco. "Numa sociedade sem parâmetros, as pessoas ficam muito aflitas. E o que é a contingência? A qualquer momento pode acontecer uma coisa ruim porque não temos mais a sensação de que estamos dominando o entorno. Não é que antes dominávamos, mas como o entorno era padronizado, pensávamos que sim."
É curioso apontar que hoje sabemos muito mais do que ontem. Temos muitos recursos às nossas mãos para avaliar uma multiplicidade de dados e auxiliar na tomada de decisões. O que vemos, porém, que o dado serve para apoiar a essa decisão, mas ele não é capaz de excluir a necessidade de escolha, pois não há dado que exclua o risco.
"O ser humano está em um novo momento: por um lado muito criativo, por outro muito angustiado. Criativo, porque todas as soluções que tínhamos foram postas em questão, as novas respostas terão de ser criativas. Angustiado, porque não temos mais nenhuma garantia." Jorge Forbes
Saber conviver com o risco é uma habilidade importante nesta nova era.
DA ÉTICA DO MEDO À ÉTICA DO ENTUSIASMO
TerraDois pede não uma Ética do Medo, mas uma Ética do Entusiasmo.
"O medo é uma posição reacionária. Ele convida a voltar para a posição anterior. É re-ação, ação para trás. Uma pessoa com medo não cria. Para criar é preciso ousadia, entusiasmo — que é uma ação sem garantias."
Reconhecer que há incertezas e que não teremos todas as respostas gera angústia em líderes e profissionais, mas a solução não está em colocar o medo como orientador. Ao invés de sermos subjugados e paralisados diante daquilo que não podemos mais controlar, podemos, por exemplo, criar uma cultura no ambiente de trabalho que fomente aprendizados contínuos, ao mesmo tempo, que peça das pessoas que sustentem os desafios participando mais e mais das decisões.
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.