A felicidade dos colaboradores é uma preocupação na sua empresa? Este tema, que antes era considerado pessoal e subjetivo, agora faz parte das estratégias organizacionais de muitas empresas. Com isso surgem até cargos específicos para tratar desta missão, como os diretores de felicidade ou "Chief Happiness Officers".
Mas… a empresa realmente é responsável pela nossa felicidade?
MEDIMOS A FELICIDADE?
Antes de falar sobre felicidade, precisamos entender o que veio antes.
Nos últimos 30 anos, as corporações têm evoluído significativamente na forma como avaliam o relacionamento de seus colaboradores com a empresa. Inicialmente, a principal métrica utilizada era a satisfação dos funcionários. Com o passar do tempo, as empresas começaram a buscar métricas mais sofisticadas, movendo-se da simples satisfação para o conceito de conexão. Este estágio de "conexão" representava um avanço, pois a satisfação é passiva, já a conexão buscava medir o envolvimento e a disposição da pessoa de se colocar no trabalho. Tudo isso inspirado pela máxima de Peter Drucker: "Se você pode medir, pode controlar”.
A ideia de felicidade veio para substituir a “conexão”, agora em um mundo em que a subjetividade “entra pelas paredes das empresas” como coloca o psicanalista Jorge Forbes.
O MUNDO MUDOU
Não é novidade para ninguém: vivemos hoje em um mundo que mudou drasticamente nas últimas décadas. Vivemos, nomeia Forbes, em uma TerraDois. Houve uma época — em TerraUm — em que havia uma clara separação entre a vida pessoal e profissional. Era um mundo de necessidades, onde a relação entre empregados e empresas era mais direta e previsível, e a subjetividade era deixada fora do local de trabalho.
Neste antigo paradigma, as empresas podiam reter seus colaboradores com relativa facilidade, pois a motivação dos funcionários estava principalmente ligada ao atendimento de suas necessidades básicas e à busca por estabilidade.
Hoje, a subjetividade permeia todos os aspectos de nossas vidas. As expectativas e experiências individuais dos colaboradores são trazidas para o ambiente de trabalho, tornando a relação com a empresa mais complexa e imprevisível. A empresa deve ser capaz de capturar a singularidade de cada colaborador.
FELICIDADE: UM BOM PARA TODOS?
Voltando à tal felicidade.
Ao analisarmos o que as empresas chamam de "felicidade" dos colaboradores, através do que prometem em seus planos e projetos, percebemos que estamos falando de outra coisa. Na verdade, o que se busca medir e promover é o bem-estar. Há uma diferença fundamental entre esses conceitos que não pode ser ignorada.
Bem-estar refere-se a um estado de equilíbrio e saúde que pode ser aplicado a todos os indivíduos dentro de uma organização. É uma condição onde as necessidades físicas, emocionais e sociais dos colaboradores são atendidas de forma adequada. Em contraste, a felicidade é um sentimento altamente subjetivo, singular e fugidio — não se planeja ou prevê a felicidade, ela nos toma de supresa.
“Para a decepção da maioria, a felicidade não obedece a regras padronizadas.” Jorge Forbes
Assegurar um bem-estar e respeitabilidade no ambiente de trabalho é fundamental, claro. Ao tentar, porém, conversar com a satisfação humana iremos nos deparar que ela é múltipla e diversa. A empresa do século XXI está começando a perceber que nem tudo se mensura ou controla, pois não dá pra passar a régua na subjetividade humana.
O desafio da nossa era será conviver com as singularidades e as diferenças sem tolhê-las. Resta saber como cada empresa o fará.
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.