Assim como o mundo, as empresas estão se horizontalizando — mas essa mudança não é tão simples como mexer em um organograma.
COMO CHEGAMOS AQUI?
Sabemos que historicamente as empresas eram estruturadas de maneira tipicamente vertical, com uma hierarquia rígida onde a tomada de decisão e o fluxo de informações seguiam um caminho linear de cima para baixo. Nessas estruturas tradicionais, os níveis hierárquicos eram claramente definidos, com cada nível tendo autoridade sobre o nível imediatamente inferior. A gestão era centralizada, e os funcionários de níveis inferiores tinham pouca autonomia ou participação nas decisões estratégicas da empresa.
Isso muitas vezes resultava em processos burocráticos, comunicação lenta e pouca flexibilidade para mudanças rápidas. O que se torna um problema em um mundo onde a necessidade de inovação rápida é crucial para a competitividade no mercado atual. Sabemos que, em um mundo em constante evolução, as empresas precisam ser ágeis para responder rapidamente às mudanças do contexto e às necessidades dos clientes.
Além disso, os avanços tecnológicos também desempenham um papel significativo nesse contexto. Ferramentas digitais e plataformas de comunicação modernas permitem que as informações sejam compartilhadas de maneira rápida e eficiente entre todos os níveis da organização, facilitando a colaboração e a tomada de decisão.
Assim, nos dias de hoje, há uma tendência crescente para estruturas organizacionais mais horizontais. Esse modelo busca reduzir ou eliminar os níveis hierárquicos intermediários, promovendo uma maior colaboração, comunicação direta e flexibilidade. Empresas mais horizontais permitem que os funcionários tenham maior autonomia e responsabilidade, incentivando um ambiente onde a inovação e as ideias podem surgir de qualquer nível. Esse tipo de estrutura facilita uma resposta mais rápida às mudanças do mercado e aumenta o engajamento e a satisfação dos funcionários, alinhando-se melhor com as demandas contemporâneas de agilidade, inovação e cultura colaborativa.
MAS… O LIDER MANDA OU NÃO MANDA?
Embora a estrutura horizontal nas empresas busque reduzir a rigidez hierárquica e promover maior colaboração e autonomia, ela não elimina completamente a hierarquia ou o papel do líder. Em vez de abolir a liderança, a horizontalidade transforma a função do líder.
Mesmo em estruturas horizontais, certas decisões estratégicas e coordenação de atividades ainda requerem um nível de supervisão e direção. A liderança é crucial para definir a visão e os objetivos da empresa e do time. A tarefa, porém, se torna mais complexa, pois é preciso exercer a liderança em um ambiente onde diferente vozes possuem poder de escuta.
O líder hoje manda, sim, mas faz isso não a partir de uma ordem de comando, mas a partir de sua subjetividade e da sua responsabilidade.
“O líder hoje deve adotar o Princípio da Responsabilidade, não a utopia, nem o medo. O Princípio da Responsabilidade exige dois movimentos: inventar uma solução e, em seguida, ser capaz de inscrevê-la ao mundo.” – Jorge Forbes
A ARBITRARIEDADE DO LÍDER
Hoje, em um mundo imprevisível e instável, a garantia de decisões absolutas é inexistente, exigindo que os líderes façam escolhas em meio à incerteza. Nesse contexto, o líder deve ter a coragem de decidir mesmo sem ter todas as respostas, fazendo uma escolha que é, em certo grau, arbitrária.
O psicanalista Jorge Forbes destaca que ‘arbitrário’ não é sinônimo de ‘totalitário’. O totalitário é aquele que não tolera uma outra posição por acreditar que a sua é a única verdadeira. O único padrão de comportamento admissível é o seu, a única lei possível é a sua. O totalitário acredita possuir o domínio da razão. Já o arbitrário, é uma posição tomada frente à impossibilidade de haver uma razão única e absoluta, um consenso. A arbitrariedade é uma posição que reconhece que, frente à pluralidade de opiniões, uma não invalida a outra. É uma posição, porém, que entende que se há diversos caminhos a serem tomados, todos igualmente possíveis, o único modo de se definir por um e não o outro é pela escolha.
“Arbitrário é a responsabilidade frente ao acaso.” Jorge Forbes
O líder de hoje é, em certa medida, arbitrário. Onde não há uma resposta última sobre qual caminho é o certo, o papel do líder é escolher — e sustentar a arbitrariedade dessa escolha frente a seus colaboradores e para si mesmo.
Em outras palavras, a nova liderança é aquela que estabelece os limites de atuação do colaborador e faz escolhas sobre quais os anseios de satisfação serão possíveis ser atendidos, criando e regulando fronteiras. Para isso, o novo líder trabalhará mais no desenvolvimento de um repertório de gestão do que buscando guias pré-formatados de boas práticas padrões.
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.