Os líderes estão em crise. Há uma dificuldade cada vez maior em saber como de fato ser líder nesse novo mundo. Essa dificuldade, hoje, é tão palpável que muitos profissionais hesitam ou mesmo recusam ascender a cargos de liderança. E por quê?
DO COMANDO E CONTROLE À GESTÃO DAS DIFERENÇAS
Em TerraUm, as designações de cada posição social, de cada cadeira, eram claras. Quando o assunto é liderança, vivíamos em um mundo pautado no "Comando e Controle", onde a relação estava bem determinada para ambos os lados: o líder mandava, enquanto o liderado seguia a ordem.
Claro que vimos muitas mudanças acontecerem na virada deste século e que o conceito rígido do “Comando e Controle” se flexibilizou, ganhando novos formatos, com ordens menos diretas e maior atenção às necessidades das equipes. Porém, permaneceu a lógica de um mundo baseado na disciplina frente à autoridade.
TerraDois rompe com essa dinâmica.
O líder TerraUm se assegura em certezas; o TerraDois convive com as ambiguidades.
Jorge Forbes
Em um mundo em rede, outras vozes, não só a do líder, têm espaço para serem ouvidas e para discordarem da palavra de ordem. Além disso, a relação pautada puramente na disciplina só tem sentido em uma sociedade padronizada, onde tínhamos um referencial estável.
Nesse âmbito vemos os sintomas mais profundos da horizontalização das relações sociais. Não se trata de uma mudança de cargo ou cadeira. A empresa, mesmo mantendo uma verticalidade de cargos, está num mundo em que a hierarquia é relativizada. Em uma sociedade múltipla, temos uma multiplicidade de diferentes pontos de vista que precisam ser geridos — tarefa nada fácil.
O LIMITE DA LIDERANÇA
O dilema está, principalmente, na definição de limites, na dificuldade que temos hoje de responder à questão: até onde vai a ação do líder em um mundo horizontal?
Se não há um referencial único, se há uma multiplicidade de pontos de vista, pode o líder baixar uma ordem arbitrariamente? E, por outro lado, até onde ele pode acomodar as queixas e desejos dos seus liderados e ainda manter-se líder?
Um líder hoje tem que estar pronto a suportar o mal-entendido.
São perguntas nada simples de serem encaradas, pois elas questionam justamente se é possível liderar no mundo horizontal. Nós, da beatt, acreditamos que o fim da verticalidade não é o fim da liderança. Se antes, porém, a resposta para a pergunta "até onde vai a ação do líder" estava já dada, hoje ela é uma questão que se coloca a cada pessoa que sobe a um cargo de liderança.
LIDERAR É UMA AÇÃO DE RISCO
Em TerraDois, perdemos garantias e ganhamos liberdades. Não haverá um líder igual a outro, acabou a pessoa com cara de líder, como coloca Jorge Forbes. A liderança possui caras múltiplas, mas isso também significa que, se antes a pessoa ascendia a um cargo de liderança com modelos prontos de como liderar, hoje, cada líder terá que inventar seu estilo, estabelecer seus limites — e se responsabilizar por isso.
Não estamos buscando nos líderes a coerência, mas a flexibilidade, a capacidade de criação do futuro.
Silvio Genesini
A ação do líder se tornou muito mais arriscada — e por isso, para alguns, angustiante. Não há como diminuir o risco de um mundo instável e sem padrões fixos. O líder será, cada vez mais, confrontado com constante necessidade do risco e da aposta — algo que pede uma boa dose de entusiasmo.
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.