No SXSW 2026, a inteligência artificial foi discutida menos como tecnologia e mais como reorganização do trabalho. Menos sobre substituição de empregos e mais sobre transformação do que, exatamente, cada pessoa faz.
Esse deslocamento tem um efeito que não é imediato, mas começa a aparecer: quando tarefas são automatizadas, redistribuídas e reconfiguradas continuamente, o vínculo entre o sujeito e aquilo que ele produz se enfraquece. O trabalho pode não desaparecer, mas ele se torna menos identificável como contribuição singular.
Mas há um segundo efeito, mais sensível: não se trata apenas de perder clareza sobre o que se entrega, mas de perder o próprio modo de fazer. E, com isso, algo da identidade que se sustentava nesse fazer.
É nesse contexto que surge a discussão sobre mattering (em português, "importar") .
A implicação: gerir sem conseguir garantir valor
Isso produz um deslocamento relevante. As organizações seguem responsáveis por gerir desempenho, engajamento e experiência. Mas passam a operar em um contexto em que não conseguem garantir uma condição básica: que o trabalho ofereça, de forma minimamente estável, a experiência de importar.
O risco aqui não é apenas de desengajamento. É mais sutil. É a produção de uma relação com o trabalho marcada por uma espécie de indiferença funcional: as pessoas seguem operando, entregando, performando, mas com uma dificuldade crescente de sustentar implicação.
Não por falta de motivação, mas por dificuldade de localizar onde, exatamente, sua presença faz diferença. E, em alguns casos, por não reconhecer mais no trabalho aquilo que antes sustentava sua própria identidade.
Além da falta de reconhecimento
Grande parte das respostas organizacionais tende a tratar essa questão como um déficit de reconhecimento. Daí a proliferação de programas, rituais, sistemas de feedback. Mas o ponto talvez seja outro.
Quando o trabalho se torna mais distribuído, mediado e fragmentado, o reconhecimento deixa de ser apenas escasso — ele se torna estruturalmente instável. Não porque as empresas não reconhecem o suficiente, mas porque se torna mais difícil estabelecer com clareza o que, exatamente, está sendo reconhecido. Se a contribuição individual é continuamente diluída em fluxos, sistemas e processos automatizados, o reconhecimento passa a operar sobre algo menos consistente.
E isso se articula com a dimensão identitária do trabalho. Em muitos casos, o que está em jogo não é apenas “ser reconhecido”, mas sustentar um modo de fazer que organizava a própria relação com o trabalho. Quando esse modo se torna obsoleto, parcial ou secundário, não é só a tarefa que muda, é o lugar a partir do qual o sujeito se reconhecia no que fazia.
É por isso que parte da resistência às novas formas de trabalho não se explica apenas por conservadorismo ou dificuldade de adaptação. Desenvolvedores que evitam incorporar vibe coding na rotina, por exemplo, não estão apenas rejeitando uma ferramenta. Estão, muitas vezes, recusando uma alteração no próprio estatuto do seu trabalho: de alguém que constrói, linha a linha, para alguém que supervisiona, corrige ou orienta sistemas que produzem por ele.
Nesse deslocamento, o risco não é só perder eficiência ou qualidade. É perder a possibilidade de se reconhecer no próprio fazer.
Um conceito que aponta para um limite
Nesse sentido, mattering não aparece como resposta, mas como sintoma. Ele nomeia um ponto em que engajamento, pertencimento e reconhecimento já não dão conta de descrever a experiência do trabalho.
Ao mesmo tempo, evidencia um limite: quando o trabalho se torna mais automatizado, distribuído e fragmentado, a experiência de contribuição singular pode se enfraquecer. Mas esse limite desloca uma exigência.
Se a tecnologia absorve o que é replicável, o trabalho humano tende a se concentrar no que não é: leitura de contexto, decisão, construção de sentido. Ou seja, menos execução e mais singularidade. Isso tensiona diretamente a identidade profissional. Não se trata apenas de aprender novas ferramentas, mas de abrir mão de modos de fazer que organizavam quem se era no trabalho — algo que muitas vezes aparece como resistência, mas que é, em parte, perda de referência.
Nesse cenário, a questão não é preservar identidades estáveis nem dissolvê-las completamente. É sustentar uma identidade capaz de se deslocar sem perder consistência. E isso não se resolve com mais iniciativas de reconhecimento, mas com culturas que consigam suportar esse movimento: menos fixação no “como sempre foi feito” e mais espaço para que o valor do trabalho seja continuamente produzido — e reconhecido — como contribuição singular.
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.