A ONU divulgou, no final de março, o Relatório Mundial de Felicidade 2023 e nele a lista dos países mais felizes do mundo. Pela sexta vez consecutiva a Finlândia está no topo do ranking como o país mais feliz do mundo (enquanto o Brasil ficou no 49º lugar caindo 11 posições).
Frente a essa publicação, cabe perguntar o óbvio: como se mede a felicidade?
O World Happiness Report
O Relatório Mundial de Felicidade (World Happiness Report) não é novo. Ele teve sua primeira edição publicada em 2012 com base em dados de 2011. A ideia por traz da iniciativa era criar um índice que orientasse as políticas públicas dos países, mas sem se basear apenas nos índices econômicos, incluindo também também a satisfação, bem-estar e felicidade de seus habitantes. Uma das motivações, na época, foi o fato do Butão haver adotado oficialmente a "felicidade interna bruta" , ao invés do produto interno bruto, como seu principal indicador de desenvolvimento.
Assim, a Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU se propôs a criar um relatório que descrevia o estado de felicidade mundial e analisava suas causas.
Na prática, a pesquisa, realizada a partir de dados da Gallup World Poll, se dá a partir de um cálculo multifatorial que computa o PIB per capita real, assistência social, expectativa de vida saudável, liberdade para fazer escolhas, generosidade, percepções de corrupção, entre outros fatores.
Se por um lado é importante que políticas públicas se desenvolvam a partir de outros fatores além do PIB — tais quais esses citados — por outro, há um salto lógico ao dizer que eles são capazes de medir a felicidade individual dos habitantes de um país, e suas causas. Esses fatores podem medir o bem-estar social e a qualidade de vida, mas esses não são exatos sinônimos de felicidade.
Uma "ciência" da Felicidade?
Por trás do Relatório Mundial da Felicidade está, justamente, uma concepção de que há uma ciência da felicidade . Ou seja, que a felicidade é parametrizável, passível de ser posta em elementos standards. Nem, tudo porém, pode ser traduzido nesses termos, lembra Jorge Forbes:
Pesquisar, no sentido de certas pesquisas empíricas, quer dizer encontrar a cifra que represente cada uma das experiências que se quer estudar. (…) Parte-se necessariamente do princípio de que tudo pode ser nomeado, e aí reside o engano. O mais essencial da experiência humana não tem nome, nem nunca terá, o que explica a característica básica dos homens: a criatividade. É paradoxalmente obscurantista a ciência que não vê o invisível do desejo; acaba promovendo o ridículo em nome de uma segurança enganosa.
Jorge Forbes (psicanalista, psiquiatra e sócio-fundador da beatt)
A qualidade de vida — que, no fundo, é o que mede o Relatório da ONU — é parametrizável, a felicidade, não. Esta é algo absolutamente singular.
Qualidade de vida é uma tentativa de dizer um bom para todos, como seria um bem viver para todas as pessoas. Eu diria, junto com o filósofo italiano Giorgio Agamben, que é fundamental substituir o termo ‘qualidade de vida’ por ‘vida qualificada’, no qual o substantivo não é mais ‘qualidade’, e sim a ‘vida’. Ou seja, uma vida qualificada está associada à responsabilidade de inventar uma satisfação pessoal e passá-la no mundo.
Jorge Forbes
TerraDois pede uma Vida Qualificada
Temos que nos perguntar também, porque há hoje um crescimento de correntes que buscam parametrizar conceitos do campo da subjetividade, tal qual a felicidade. Sim, a humanidade sempre se perguntou sobre como ser feliz, mas hoje pululam fórmulas e manuais que prometem métodos precisos de como alcançar a felicidade.
Jorge Forbes demonstra que isso é um sintoma social frente à pós-modernidade, nomeada por ele de TerraDois.
No mundo atual, a ligação entre as pessoas se horizontalizou; os padrões não são mais unitários, mas múltiplos, o que aumenta muito a responsabilidade de cada um frente às suas escolhas. E isso angustia, daí a ânsia de que algum estudo empírico restabeleça a ordem vertical perdida e assegure o sucesso a quem disciplinadamente seguir o que lhe for prescrito “cientificamente”.
As empresas sentem essa mudança de era. Os modelos de gestão, performance, retenção de talentos e liderança que até pouco tempo funcionavam não surtem mais os mesmos efeitos. Frente a isso, muitas organizações buscam estabelecer novos parâmetros estáticos de como agir — inclusive criando cargos como Diretor de Felicidade ou CHO (Chief Happiness Officer) .
Isso, porém, é tratar novos sintomas com velhos remédios. Mais interessante do que achar novos standards de comportamento, seria aprender a lidar com a subjetividade dos colaboradores.
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.