Nos últimos anos, o home office tornou-se um modelo amplamente adotado, especialmente durante a pandemia de COVID-19. Essa nova forma de trabalho ressoou, inclusive, com uma percepção mais ampla por parte das empresas e da sociedade de que a vida profissional e pessoal não têm mais limites rígidos, e que subjetividade que transborda o espaço do trabalho. No entanto, muitas empresas estão reavaliando essa prática e exigindo o retorno ao trabalho presencial. Amazon, Apple, Disney e até mesmo o Zoom – uma empresa cujo produto viabilizou o trabalho remoto – implementaram políticas que obrigam os funcionários a comparecerem ao escritório com frequência. A justificativa oficial geralmente se apoia na colaboração e na produtividade, mas o fenômeno vai além disso: há desafios estruturais que explicam essa mudança de postura.
Dificuldade de Gerenciamento e Performance
O principal argumento por trás da volta ao presencial é a dificuldade de gerenciamento e monitoramento da performance. Para muitas lideranças, acompanhar o desempenho dos colaboradores sem a interação presencial se tornou um desafio. A comunicação virtual, embora eficiente em muitos aspectos, reduz a percepção do engajamento e torna a supervisão mais complexa. Em ambientes presenciais, ajustes podem ser feitos de forma instantânea e direta, algo que no home office pode se perder entre mensagens e reuniões remotas.
Mas será que vigilância gera performance? A produtividade está necessariamente ligada à presença física? Apostamos que a queixa do desempenho é só a ponta do iceberg e há motivos mais profundos para esse fenômeno.
Manutenção da Cultura Organizacional
Outro fator nos parece mais determinante: a manutenção da cultura organizacional. Empresas como Apple e Disney defendem que a presença física fortalece a identidade corporativa e promove um senso de pertencimento. A troca espontânea de ideias no escritório, a imersão no ambiente da empresa e a convivência entre equipes são aspectos que, segundo essas organizações, impactam diretamente a inovação, a criatividade e na cultura empresarial que, muitas vezes, é construída no dia a dia.
Em, contrapartida, alguns argumentam que em um mundo cada vez mais interconectado, onde a cultura é consumida e compartilhada em rede, onde lançamento em uma parte do globo pode viralizar em minutos e tendências se espalham digitalmente, o engajamento da empresa também não pode se tornar um viral?A escolha entre o home-office, o híbrido e o presencial depende dentro de cada contexto de negócio, mas vale a pena ressaltar que a presença física não equivale ao compartilhamento de uma cultura, e mesmo uma empresa em que o trabalho seja 100% presencial precisará se questionar: como se faz uma cultura viral?
Crise dos Juniores
A crise na formação de profissionais juniores também tem pesado nessa equação. Muitas empresas relataram dificuldades no desenvolvimento de novos talentos devido à falta de interação presencial. No modelo remoto, profissionais mais jovens perdem a oportunidade de aprender observando seus colegas e superiores. Esse aprendizado, que se dá na observação, na escuta e na troca cotidiana de experiências, tende a se dar expontaneamente no ambiente de trabalho, enquanto esses momentos precisam ser ativamente criados no home office, dificultando a curva de desenvolvimento e tornando a integração mais lenta na maioria dos casos.
Por outro lado, sabemos que esses mesmos novos talentos demandam cada vez mais autonomia e flexibilidade.
O Dilema da Autonomia
Entramos, nessas questões, no dilema da autonomia. As empresas sabem que precisam transmitir responsabilidade e autonomia para seus profissionais, mas ainda não descobriram completamente como fazer isso. E na falta de novas saídas apostam no modelo que funcionava antes.
É importante sabermos, porém, que o que funcionou no passado não tem mais garantia alguma no presente. Seja presencial, home office, ou híbrido cada empresa terá em seu caminho a tarefa de desenhar sua organização e recalcular essa rota a todo momento.
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.