Durante anos, Amy Webb se tornou uma das principais referências globais em relatórios de tendências. Seu trabalho ajudou a consolidar um formato que virou quase padrão: mapear sinais emergentes, organizar movimentos e oferecer uma leitura estruturada do futuro para orientar decisões no presente. Esse ano, SXSW 2026, Amy Webb declarou o fim do relatório de tendências.
A questão não é que tendências deixaram de existir, nem que perderam relevância. O ponto é que o modo como elas vinham sendo organizadas — como vetores relativamente estáveis, passíveis de mapeamento e projeção — começa a perder consistência diante das transformações atuais.
Durante anos, esse formato funcionou porque oferecia algo valioso para organizações: a possibilidade de antecipar. Identificar sinais, organizar padrões e, a partir disso, construir narrativas sobre o que viria a seguir. Essa lógica pressupunha um mundo que, embora dinâmico, ainda permitia algum grau de ordenação. Não estamos mais nesse mundo.
Quando as mudanças deixam de ser catalogáveis
O primeiro ponto que se fragiliza é a ideia de separação. Relatórios de tendências operam, em geral, a partir da divisão do mundo em categorias — tecnologia, comportamento, economia, cultura — como se fosse possível analisar cada uma de forma relativamente independente. Esse recorte organizava a leitura e tornava o futuro mais inteligível.
O que começa a acontecer é que essas fronteiras se tornam cada vez menos nítidas. Inteligência artificial, biotecnologia, clima, dinâmicas sociais e políticas passam a operar como sistemas interdependentes, que se atravessam continuamente. Nesse cenário, isolar tendências deixa de ser apenas difícil; em alguns casos, passa a ser uma simplificação que distorce o fenômeno que se pretende analisar.
Quando a linearidade deixa de sustentar previsão
Ao mesmo tempo, o segundo pressuposto também entra em crise: o da evolução linear. O modelo clássico de tendências depende da ideia de que é possível observar sinais no presente e projetar seus desdobramentos de forma relativamente contínua. Ainda que com incertezas, havia uma expectativa de progressão.
Hoje, essa progressão se torna menos confiável. As mudanças não apenas se aceleram, mas passam a ocorrer de forma descontínua, com saltos, retrocessos e efeitos não previstos. Pequenas alterações em um campo podem gerar impactos amplificados em outros, tornando o comportamento do sistema menos previsível. Nesse contexto, a ideia de antecipar a partir de linhas de tendência perde precisão.
O risco da clareza excessiva
É nesse ponto que surge o principal problema do formato. Relatórios de tendências não apenas descrevem o futuro; eles organizam uma forma de vê-lo. Ao estruturar sinais em categorias e narrativas, produzem uma sensação de clareza que, por muito tempo, foi funcional.
O que se coloca em questão agora é o limite dessa clareza. Ao simplificar um cenário que é cada vez mais interdependente e não linear, esses relatórios podem estabilizar excessivamente a leitura da realidade. E, ao fazer isso, correm o risco de orientar decisões a partir de uma compreensão que não se sustenta quando confrontada com a complexidade efetiva das situações.
De antecipar para decidir em incerteza
A provocação de Amy Webb não elimina a necessidade de olhar para o futuro. O que ela propõe é um deslocamento no modo de fazer isso. Se não é mais possível organizar o futuro em listas relativamente previsíveis, o foco deixa de ser antecipar com precisão e passa a ser sustentar decisões em contexto de incerteza.
Isso implica uma mudança importante. Em vez de depender de narrativas estruturadas que prometem clareza, torna-se necessário desenvolver capacidade de leitura situada, capaz de lidar com variáveis que se transformam simultaneamente. O desafio deixa de ser prever o que vai acontecer e passa a ser agir quando não há uma imagem estável do que está por vir.
Essa mudança não simplifica o trabalho de decisão, ela o torna mais exigente. Mas talvez seja justamente isso que está em jogo: reconhecer que, em determinados contextos, a tarefa não é reduzir a incerteza a uma narrativa organizada, e sim operar a partir dela sem a garantia de que o cenário pode ser plenamente estabilizado.
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.