Vivemos em um mundo horizontal e globalizado. Sabemos que esta realidade remodelou as estruturas empresariais, que passaram de modelos estritamente verticais e hierárquicos para formas que incluem mais e mais dinâmicas horizontais e colaborativas.
Neste novo cenário, a colaboração tornou-se um pilar central das empresas, mas muitas vezes vemos isso de maneira excessivamente romântica. Ideias de que a colaboração seja um equilíbrio constante onde todos trabalham com um entendimento comum dos objetivos do projeto, com alinhamento e movendo-se na mesma direção é um tanto quanto utópico. Implementar uma cultura que saiba fazer uso da colaboração requer entender os desafios desse novo momento.
SOMOS TODOS DIFERENTES
Podemos pensar, em um primeiro momento que, em um mundo horizontal somos todos iguais. Isso é um engano. Em um mundo horizontal, destaca o psicanalista e pensador da pós-modernidade, Jorge Forbes, somos todos diferentes. Isto é, vivemos em um mundo onde todos têm direito à sua diferença e onde pontos de vista conflitantes podem ter o mesmo valor.
Um mundo horizontal não é um mundo do consenso. Assim, um trabalho colaborativo dificilmente terá a harmonia de uma ordem unida. Contrário do que o senso comum poderia pensar, isso era mais viável em um mundo vertical, do comando e controle. A colaboração em um mundo horizontal exige a capacidade de articular as diferenças, de trabalhar juntos abrindo mão da possibilidade de consenso absoluto.
Neste contexto, a habilidade de negociar torna-se fundamental. Colaborar não significa simplesmente concordar e seguir em frente, mas sim gerenciar e reconciliar diferenças de opiniões, habilidades e perspectivas. A colaboração efetiva é, portanto, também uma gestão de divergências.
COLABORAÇÃO & SINGULARIDADE
Aprofundar a reflexão sobre a colaboração é quebrar um mito contemporâneo. Comumente, nas organizações, é utilizada a palavra “sinergia” para explicar a cooperação e interação entre diferentes indivíduos, gerando um benefício mútuo ou em um resultado amplificado. O que essa palavra não consegue captar, porém, é que a empresa é composta por singularidades e não particularidades.
Enquanto o particular é “parte de um todo”, destaca Jorge Forbes, o singular não encontra par. Os indivíduos que compõem um time ou uma empresa são singulares e com desejos singulares. Assim, em todo esforço coletivo não encontramos um movimento coeso e, sim, ruídos e dissonâncias.
A colaboração existe e é fundamental no século XXI, mas ela pode ser vista como um apagamento da singularidade. Isso é uma romantização que falha em capturar o fato que um dos maiores desafios das lideranças e das culturas organizacionais será o tratamento do tema da união, que agora não aceita a imposição do “comando” para acontecer, mas exige a satisfação das aspirações pessoais e intransferíveis de cada profissional. É uma prática complexa que requer um equilíbrio cuidadoso entre unidade e diversidade, entre cooperação e autonomia.
E você, sabe o que deseja o seu dito “colaborador”?
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.