Desde novembro de 2022, quando foi lançado o ChatGPT, o debate acerca da Inteligência Artificial não sai de pauta. Afinal, entendemos que este é apenas o início de uma revolução que trará resultados imprevisíveis.
Depois de uma primeira excitação, frente ao incerto e intangível, muitos respondem com o medo, com pedidos de cautela e, até, com proibições. Proibir, porém, uma ferramenta com mais de 100 milhões de usuários, e que segue crescendo a cada segundo, diz Jorge Forbes "é como se quiséssemos captar a água das Cataratas do Iguaçu com um copo."
Precisamos de reflexões melhores, de um debate à altura desta reflexão.
DESTRUIÇÃO CRIATIVA
O primeiro grande medo que aparece com a chegada dessa nova geração de I.A. é o fim dos empregos. Toda revolução tecnológica, afinal, gerou o movimento nomeado por Schumpeter de "Destruição Criativa", que mostra como toda inovação destrói algo do status quo anterior. As inovações frutos das Revoluções Industriais fizeram inúmeros empregos ficarem obsoletos, uma vez que geraram máquinas mais rápidas, mais eficientes e mais baratas em comparação ao trabalho humano.
Nada disso é novo. A diferença é que se antes trabalhos "mecânicos" eram substituídos por máquinas, agora, funções intelectuais também estão ameaçadas. Isso é inédito. É a primeira vez que médicos, advogados, redatores, entre outros, vêem suas tarefas desempenhadas pela I.A.
Claro, se alguns empregos desaparecem, outros são criados. No entanto, fica a dúvida: teremos as aptidões necessárias para esses novos empregos? Não todos. O analfabetismo digital ameaça ser a maior fonte de desigualdade social já vista, destaca Jorge Forbes. Assim, mais do que temer ou tentar barrar inutilmente a Inteligência Artificial, é preciso uma revolução na educação para que possamos trabalhar na complementariedade da I.A.
O FIM DOS HUMANOS?
Há também um medo mais radical, de que os humanos sejam completamente substituídos pelas máquinas. Para responder a isso, precisamos entender a distinção entre Inteligência Artificial forte e fraca.
I.A fraca é a única existente até o momento, seja ela um simples algoritmo de mídia social ou o mais potente computador. Reservamos para o termo I.A. forte à Inteligência Artificial capaz de pensar a si mesma. Apenas a I.A. forte seria capaz de substituir de fato os humanos, mas fica a dúvida — ela é possível de ser criada? Ou seria um sonho da ficção científica?
Ninguém possui a resposta final, mas para entender melhor as possibilidades precisamos compreender 3 posições diferentes frente à I.A.: os biodefensores, os pós-humanistas e os transumanistas (apresentados abaixo por Jorge Forbes).
Biodefensores
"O primeiro grupo, de biodefensores como Francis Fukuyama e Michael Sandel, defende que é muito perigoso continuarmos as pesquisas tecnológicas, e que essas deveriam ser reguladas e freadas em seus avanços, por colocarem em risco nosso futuro como espécie."
Pós-humanistas
"O segundo grupo, que conta com Ray Kurzweil e Peter Diamandis, ambos da tão em moda quanto polêmica Singularity University, coincide com a ideia que as máquinas vão ultrapassar o humano e que uma nova raça está nascendo - só que, à diferença dos biodefensores, eles acham que isso é o máximo e que, com a máquina, excluídos os aspectos biológicos, seremos finalmente eternos."
Transumanistas
"Quanto ao terceiro grupo, o dos transumanistas como Luc Ferry e Laurent Alexandre, sua ideia é que o humano jamais será ultrapassado, por não ser possível transformá-lo integralmente em dígitos.
O tempo atual da pós-modernidade, nossa TerraDois, exigirá que nos aperfeiçoemos na interface “humano-inteligência artificial”. A palavra do momento é “complementariedade”.
Jorge Forbes
Tanto os biodefensores como os pós-humanistas concordam com a possibilidade de uma I.A. forte, embora discordem sobre as consequências. Enquanto os transumanistas, não vêem essa possibilidade.
O psicanalista, Jorge Forbes, se coloca junto aos transumanistas, uma vez que a Psicanálise nos mostra que a essência do humano é vazia. Ou seja, que, à diferença de todos os outros animais, nem tudo do humano é cifrável, portanto não capturável pela máquina.
A ERA DA SUBJETIVIDADE
"Tudo que for protocolar, padronizável, as máquinas farão cada vez melhor que nós, mas máquinas não pensam a si mesmas, não duvidam, não têm questões éticas", coloca Jorge Forbes. "Paradoxalmente, o avanço da Inteligência Artificial abre espaço para a subjetividade humana."
A Inteligência Artificial não abre uma Era maquínica, onde o humano não tem mais lugar. Pelo contrário, cada vez mais terão valor as atividades que exigem de nós aquilo que a máquina não faz: o agir a partir da subjetividade.
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.