Não é de hoje que as emoções deixaram de ser assunto somente da esfera pessoal e dos consultórios, e viraram, também, pauta central do universo do trabalho. As empresas são questionadas a todo momento sobre o seu papel na saúde mental de seus colaboradores, criando e aplicando metodologias que buscam garantir o bem-estar no ambiente de trabalho.
Mas... o que querem dizer essas duas palavras: Saúde Mental? E por que elas ganharam importância no mundo corporativo?
A subjetividade entrou nas empresas
Antes a vida e trabalho não se misturavam. Em TerraUm, como nomeia Jorge Forbes, acreditava-se que apenas a racionalidade tinha lugar entre as paredes das empresas. Na pós-modernidade, em TerraDois, os limites são fluidos. Não há mais uma diferença estrita entre casa e trabalho, entre vida corporativa e vida familiar. Com isso, a subjetividade dos colaboradores passou a permear também os processos do trabalho.
No mundo uniformizado em que as organizações se acostumaram a viver, a subjetividade humana não passava pelo portão. Deixe seus problemas pessoais em casa, não os traga para o trabalho, e vice-versa, deixe seus problemas de trabalho na empresa, não os traga para casa, costumava-se dizer. A pós-modernidade explodiu o muro que separava esses dois mundos.
Jorge Forbes
Essa passagem de TerraUm para TerraDois foi ainda mais acentuada pela pandemia, quando o trabalho adentrou completamente o ambiente da casa, acabando com as poucas fronteiras que ainda os separavam. Aí diferenciamos causa e consequência: não foi a pandemia e o home office forçado que mudou nossa relação com o trabalho, mas eles foram eventos catalisadores de algo que já ocorria.
Passada a emergência da covid-19, nos vemos ainda com o dilema de como habitar um mundo em que as fronteiras são flexíveis e que a subjetividade de cada um participa de tudo o que fazemos.
O Desafio de um Mundo da Razão Sensível
Um mundo de fronteiras rígidas, em que precisávamos deixar nossa singularidade na porta antes de entrar no trabalho, nos dava pouca liberdade, mas um mundo flexível pautado na subjetividade traz novos desafios — tanto para as empresas, como para os próprios colaboradores. Colocar a subjetividade no centro é lidar, a todo momento, com a diversidade, ou seja, com a ausência de padrões, com a variabilidade e com a instabilidade.
As empresas estão no mundo do “I N”. Um mundo INcerto, INstável e INtangível.
Silvio Genesini
É comum, inclusive, vermos pedidos e propostas de voltar atrás, criar novas fronteiras que separem trabalho do sujeito, a razão da subjetividade. É claro que essas propostas não vão funcionar, não há como voltar atrás em uma revolução. A pandemia passou, mas a pós-modernidade, TerraDois, está aí e exige de nós novas respostas.
E a "Saúde Mental"?
Uma das respostas que muitas empresas dão, hoje, para lidar com os dilemas da subjetividade de seus colaboradores são programas de Saúde Mental. À primeira vista, parece que estamos dando um passo à frente, pois não é um discurso de excluir a subjetividade, mas de lidar com ela.
Se olhamos mais a fundo, porém, vemos que é uma nova tentativa de padronizar comportamentos. A própria expressão "Saúde Mental" conduz a esse erro, pois insinua que há uma única saúde mental, um único padrão de comportamento subjetivo que seria tido como o saudável. Jorge Forbes, psicanalista e cofundador da beatt, reforça que a subjetividade é o que há de mais singular. Tanto, que o correto seria dizer que há Saúdes Mentais — no plural.
Assim, ao invés de buscar padronizar a subjetividade humana, é preciso criar uma cultura que saiba operar com a variabilidade dos modos de ser — algo muito mais desafiador, mas muito mais criativo e consistente.
Incluindo a subjetividade nas empresas
É preciso ampliar o entendimento sobre a complexidade da questão, preparando líderes – do primeiro nível ao mais sênior – e liderados para essa discussão, para que a questão da subjetividade não se resuma a um benefício a ser oferecido como moeda de retenção e atratividade, ou uma nova padronização de comportamento.
A resposta para esse novo mundo não é colocar as pessoas em novas caixas, mas incorporar a noção de subjetividade na lógica da empresa, e aprender, de fato, a operar com as diferenças.
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.