Todo começo de ano traz consigo uma reflexão que costuma acompanhar o planejamento estratégico das empresas: "qual é o nosso propósito "?
Embora essa palavra tenha se consolidado como um marco essencial nas discussões empresariais, impõe-se o convite para a sua revisita — essencial e estrategicamente necessária.
A origem do propósito
As empresas acreditam que precisam de um propósito porque ele atua como um guia estratégico e emocional em um mundo cada vez mais complexo e competitivo. Internamente, um propósito claro ajudaria a engajar colaboradores, dando sentido ao trabalho além de resultados financeiros e alinhando esforços em direção a objetivos maiores. Externamente, ele fortaleceria a identidade da marca e criaria conexões mais profundas com consumidores, investidores e outros stakeholders, que estão cada vez mais exigentes quanto ao impacto social e ambiental das organizações.
Propósito: Do "Hype" ao Moralismo
O propósito também é visto como uma resposta às mudanças culturais e econômicas, como o movimento ESG e a busca por autenticidade nas relações de consumo. Ele permitiria que as empresas se posicionem de forma relevante em um mercado saturado, destacando-se por seus valores e contribuições para a sociedade. Contudo, essa adoção acelerada trouxe um efeito colateral: uma uniformização moralista e estática, onde o propósito parece servir mais como um selo de virtude do que como um guia para ações concretas.
Essa "moralização" do propósito gera desconfiança e ceticismo. Ele pode se tornar genérico, repetitivo e desconectado da singularidade de cada organização, minando sua autenticidade e eficácia como ferramenta de diferenciação.
Serendipity: O Valor do Inesperado
Em meio à busca por propósito, é essencial não ignorar o papel do acaso e da “Serendipity” nos processos de inovação e transformação. Serendipity é o fenômeno de descobertas inesperadas que surgem de interações não planejadas e contextos aparentemente aleatórios.
Empresas que promovem uma cultura que valoriza a experimentação e o aprendizado constante criam espaço para a Serendipity. Isso pode acontecer, por exemplo, por meio de dinâmicas horizontais de trabalho, ambientes colaborativos e a disposição para acolher ideias e contribuições de diferentes áreas e perspectivas. Essa prática não é apenas uma estratégia para estimular a inovação, mas também um reflexo de uma organização que reconhece a complexidade do mundo em que opera.
Precisamos de um propósito?
Em um mundo globalizado e imprevisível, a ideia de propósito precisa ser revisitada sob a perspectiva da singularidade e da adaptabilidade. Um propósito genérico e imutável estava mais no tom de TerraUm. TerraDois exige uma abordagem flexível, que permita ajustes contínuos conforme o contexto muda.
Um exemplo prático dessa abordagem é a carta anual de Jeff Bezos aos acionistas da Amazon. Nessas cartas, ele destaca como a empresa se adapta às circunstâncias, preservando princípios fundamentais enquanto ajusta estratégias e práticas de acordo com o contexto. Essa prática demonstra que uma empresa não precisa se unir sob um propósito estático; o laço que une colaboradores e stakeholders pode ser dinâmico e moldado pelo tempo, sem perder sua relevância.
O propósito nas empresas não é uma fórmula mágica. Mais do que se fixar em standards, como o propósito, TerraDois convida as empresas a refletirem sobre os seus princípios, aquilo da qual não podem abrir mão, e como elas se adaptaram a cada nova circunstância de TerraDois em se fechar para o acaso e para Serendipity.
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.