Vivemos na era da comunicação. Estamos a todo momento conectados, trocando mensagens, mandando áudios, documentando e postando nosso dia a dia. Isso significa que estamos nos comunicando melhor? Estaríamos, enfim, em uma era de transparência total?
A Era da Transparência?
A tecnologia moderna, com seu arsenal de ferramentas para documentar, gravar e publicar, poderia nos seduzir a crer que vivemos em uma época transparente. Afinal, a digitalização da vida cotidiana parece prometer um panorama onde tudo está à vista. No entanto, Jorge Forbes nos alerta para um paradoxo crucial
“Estaríamos vivendo a era da transparência total? Engano. Seria transparência se tudo o que pudesse ser visto, se tudo o que se publicasse fosse verdade. O paradoxo é que ocorrerá exatamente o contrário: tudo a priori será mentira e as pessoas ficarão tontas correndo atrás da verdade.” Jorge Forbes
A proliferação de conteúdo não garante autenticidade; pelo contrário, ela só ressalta a dúvida.
É o que vivemos hoje na prática. Vemos isso nos fenômenos das fake news e agora dos deep fakes. As novas tecnologias deixam evidente algo que as ciências humanas sempre se debruçaram: que não sabemos bem o que é a realidade.
“O fenômeno das notícias falsas não é uma novidade, o que é novo é sua quantidade colossal facilitada pelos meios digitais de comunicação associado a uma TerraDois, a um mundo pós-moderno, no qual a falta de padrões verticais estáveis possibilita a experiência profética de Nietzsche de que não há fatos, mas só versões.” Jorge Forbes
A Era do Mal-Entendido
A internet e as novas tecnologias nos mostram que levar a comunicação à sua máxima potência não vai acabar com a dúvida e o mal-entendido. Não é conversando que a gente se entende. Não é com mais provas, que chegamos a uma verdade final. Não é, necessariamente, com mais dados que chegaremos a uma certeza indubitável. Pelo contrário, a partir de um ponto mais informação gera mais incerteza.
Chegamos a mais um paradoxo. A era da comunicação é ao mesmo tempo a era do mal-entendido. Quando não há só os meios de comunicação oficiais, mas todos podem tomar a voz, horizontalizamos as relações, diversificamos os pontos de vista, mas também vemos que o consenso não é mais possível.
Constatamos com isso, que não iremos excluir o mal-entendido, nem da comunicação, nem das nossas dinâmicas de trabalho ou pessoais. Para viver em um mundo diverso, é preciso abrir mão da garantia do consenso. É preciso aprender a gerir o mal-entendido. “Um líder hoje tem que estar pronto a suportar o mal-entendido.” Jorge Forbes
Da Transparência à Confiança
Outra questão que se abre: diante de um cenário onde nem tudo pode ser provado ou assegurado, no que podemos confiar? Devemos desconfiar de tudo e de todos a todo momento? Seria a morte da confiança?
Pelo contrário, em TerraDois, a confiança ganha um novo valor, tornando-se um elemento crítico nas interações sociais, negócios e relações pessoais. Quando chegamos no limite dos dados objetivos, para não nos paralisarmos pela dúvida, é preciso lançar mão de elementos intangíveis.
“Havia uma época em que a razão deveria ser asséptica, sem cheiro de humanidade. A época onde as pessoas se escondiam atrás de uma aparente objetividade pseudocientífica. Ficava-se repetindo: -“Os números mostram que…”, como se os números falassem por si, quando nem mesmo as rosas o fazem, Cartola dixit. Mais atual é a razão sensível, mistura de lógica com emoção, onde esta, a emoção, completa responsavelmente os furos da outra, a lógica.” Jorge Forbes
A confiança é mais difícil de se estabelecer, pois se constrói não com elementos objetivos, mas qualidades subjetivas. A confiança ganha força em TerraDois, um mundo que opera mais pelo ressoar, do que raciocinar.
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.