Nas empresas, é comum tratar cultura como se fosse um sistema de encaixe. As lideranças buscam coesão, os processos buscam alinhamento, e as pessoas tentam entender se “combinam” com a organização. É como se existisse um molde ideal de comportamento e quem não se encaixa nele estivesse fora do jogo.
Mas esse é um erro de origem. A cultura não é um ambiente de conforto e previsibilidade, ela é uma tensão contínua entre o que já é e o que ainda pode ser. Onde há movimento, há atrito. E é esse atrito que sustenta uma cultura viva.
Por que buscamos o fit cultural?
A ideia de fit cultural oferece conforto. Ela promete uma forma simples de decidir: quem combina, fica; quem não combina, sai. Em um mundo complexo, essa lógica binária parece, a primeira vista, eficiente. Reduz o risco, acelera processos seletivos, evita o conflito.
Mas essa busca por encaixe absoluto parte de um um equívoco: a de que a cultura organizacional é (ou deveria ser) coesa. Que existe uma unidade a ser preservada, e que qualquer dissonância representa ameaça.
Tensão Cultural
É comum confundir cultura com uniformidade. Mas culturas organizacionais não operam a partir de uma lógica única, nem são guiadas por princípios que se articulam sem fricção. Mesmo quando há valores declarados, a forma como esses valores ganham corpo é atravessada por interpretações diversas, contradições práticas e negociações diárias.
A cultura não é um bloco homogêneo. Ela é múltipla, muitas vezes ambígua, e sempre inacabada. Existe, sim, uma espinha dorsal — princípios, direções, modos de operar que dão uma certa consistência à identidade da organização —, mas isso não significa coesão. Significa, no máximo, um campo de referência comum a partir do qual se desenham as diferenças. A cultura não é o lugar onde contradições se anulam, é o lugar onde elas convivem, se chocam, se reorganizam.
Quando tratada como algo coeso, a cultura se torna frágil: qualquer desvio é visto como erro, qualquer dissenso como ruído, qualquer ambiguidade como risco. Mas é justamente o contrário. É na sustentação dessas tensões (e não na sua resolução) que a cultura ganha potência.
Walk the talk
Muito se cobra das organizações que façam o walk the talk, que não haja uma distância entre discurso e prática. Mas isso muitas vezes não se concretiza não por falta de coerência, mas por dificuldade de sustentar as contradições inerentes à dinâmica cultural.
Sustentar uma cultura viva exige abandonar a ilusão da coerência. Exige reconhecer que a harmonia — como já dizia Heraclito — é uma tensão entre paz e guerra. E que liderar uma cultura não é alinhar tudo em torno de uma verdade única, mas sustentar a complexidade de um campo onde princípios, práticas e pessoas convivem em movimento.
Culturas vivas não são aquelas que eliminam o conflito, mas as que sabem sustentá-lo. Que reconhecem o paradoxo como condição, e não como problema a ser resolvido.
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.