Nos últimos anos, cresceu nas organizações o desejo por criar ambientes neutros, “seguros”, emocionalmente acolhedores. Espaços onde não haja desconforto, ruído, mal-entendidos. Onde a comunicação seja sempre clara, os relacionamentos fluam sem atrito e o bem-estar seja garantido.
Mas e se essa busca estiver, sem querer, desconsiderando a própria natureza do trabalho coletivo?
Empresas são lugares de conflito. E não, isso não significa que devam ser lugares de abuso.
Conflito não é sinônimo de violência, desrespeito ou descuido. Conflito é da ordem da diferença. E onde há mais de uma pessoa, há diferença. Há linguagem — e, com ela, o mal-entendido.
O mito da comunicação transparente
A ideia de que podemos alcançar uma comunicação perfeitamente transparente é um mito. A linguagem humana é estruturada por falhas, ambiguidade e lapsos. Isso não se resolve com mais uma ferramenta de feedback, ou com uma “regra de ouro” de convivência. O que se pode fazer é administrar esse mal-entendido — incluir a falha como parte do processo.
Vivemos o fim da era do consenso
Como lembra o psicanalista Jorge Forbes, estamos em TerraDois — uma época onde já não existe um único padrão, um único normal. Vivemos numa sociedade horizontal, em que múltiplos modos de vida coexistem, muitas vezes em tensão. São múltiplas verdades, muitas vezes conflitantes e contraditórios, que podem ter, ao mesmo tempo, legitimidade.
Nessa paisagem, o líder não é mais aquele que impõe uma narrativa comum, mas o que é capaz de articular diferenças. Fazer gestão hoje é lidar com o impasse — e não tentar apagá-lo em nome de um ideal de harmonia.
Espaços seguros ou espaços vivos?
O risco, quando buscamos neutralizar o conflito, é acabarmos criando um ambiente inócuo. Um lugar onde ninguém se posiciona, onde o debate é silenciado, onde as ideias se nivelam pela superfície. Um ambiente “seguro”, mas morto.
Talvez a pergunta que precise ser feita seja outra: como criar espaços vivos — onde o conflito seja possível, mas não destrutivo? Onde haja lugar para a tensão, sem que ela se torne abuso? Onde a diferença não seja temida, mas escutada?
Texto publicado originalmente na newsletter Tocando o Futuro, da beatt.